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O curso parte do livro O espírito das roupas: a moda no século XIX (1987), da filósofa brasileira Gilda de Mello e Souza, e dos manuscritos inéditos sobre moda presentes no Fundo Gilda de Mello e Souza do Arquivo do IEB/USP, para investigar as relações entre a literatura e o fenômeno estético-social da Moda, a partir de obras de escritoras e escritores como Virginia Woolf, Marcel Proust, José de Alencar, Honoré de Balzac, Joaquim Manuel de Macedo e Machado de Assis.
Em um diálogo com a filosofia, a sociologia e a teoria de moda, trata-se de apresentar e comentar os principais tópicos, noções e conceitos extraídos por Gilda de Mello e Souza dessas literaturas, entre eles: a Moda como arte, a vestimenta como expressão dos papéis de gêneros, a cultura da feminilidade burguesa e a Moda relacionada à luta de classes.
Para Gilda de Mello e Souza, a moda é um fenômeno dialético, isto é, capta o indivíduo no todo social pela imitação das modas passageiras, mas, também, permite à individualidade perfazer a sua própria subjetividade ao criar, por meio das formas da vestimenta, um desenho, uma escritura da gestualidade. Na relação entre a Forma do corpo e a Forma do vestido, uma terceira Forma se destaca, a do corpo em movimento, criando assim uma Figura.
Assim, a Moda constitui-se como “arte do movimento”, cujo trabalho do costureiro consiste, tal como o artista, em solucionar os problemas inerentes às formas através da escolha dos tecidos, das cores, dos aviamentos, das texturas e das técnicas de costura. A sua “obra”, se assim podemos dizer, é inacabada, pois necessita do corpo vestido em movimento para compor uma atitude, uma “caligrafia dos gestos”. Forma inacabada e incompleta que se movimenta no tempo e no espaço, assim é a vestimenta nos ciclos infernais e repetitivos da moda, como também a própria existência individual.
Nesse aspecto, o curso entrelaça a noção de “inacabado e incompleto” do gesto com o conceito de “filosofia do instante”, presente nas análises da Profa. Gilda sobre a literatura produzida por Clarice Lispector, sobretudo o romance A maçã no escuro (1961), mas também o “instante” da forma e gênero literário do ensaísmo, das pinturas impressionistas, da imagem-movimento do cinema das décadas de 1950–1970 e, principalmente, a incompletude do gesto efêmero da Moda.
A partir dos manuscritos inéditos de Gilda - especialmente os textos “Bricolage” e “Moda” - essa reflexão se aprofunda e ganha novos contornos. Ali, a autora amplia a perspectiva desenvolvida em O espírito das roupas ao aproximar a teoria da Moda das linguagens artísticas e da linguística estrutural. Inspirada na distinção saussuriana entre langue e parole, Gilda concebe a Moda como um sistema de formas, normas e modelos que se oferece aos sujeitos enquanto repertório coletivo, mas que só se realiza plenamente na atualização individual, no gesto criador de quem veste. O ato de vestir é compreendido como uma “fala estética”, em que cada usuário, por meio de escolhas, composições e acentos próprios, imprime subjetividade ao sistema.
Nesses manuscritos, a ideia de “caligrafia dos gestos” retorna ampliada pela noção de “bricolage”: vestir-se é montar, desmontar e remontar peças, produzir combinações e experimentos que configuram, no corpo, uma forma singular de expressão. A bricolagem, como operação estética, aproxima a moda de outras artes modernistas que trabalham com fragmentos, cortes e rearranjos - da colagem das vanguardas ao romance de fluxo de consciência, passando pelo cinema e pela fotografia.
Gilda identifica, na modernização do vestuário do início do século XX, uma revolução silenciosa conduzida sobretudo por mulheres. O tailleur Chanel, o corte simplificado das peças, a liberação do corpo pela dança moderna, o surgimento da calça feminina, a multiplicação de peças intercambiáveis e o uso cotidiano do prêt-à-porter reconfiguram a relação entre corpo e vestimenta. O indivíduo deixa de ser mero imitador da moda e passa a atuar como criador, artista de si, autor de um estilo. Esse movimento aproxima a moda de práticas estéticas contemporâneas como os ready-mades duchampianos, em que o cotidiano se torna espaço legítimo da criação.
Desse modo, o curso abordará como, para Gilda, moda e literatura se aproximam por compartilharem procedimentos de composição: a montagem de fragmentos, a invenção de ritmos, a criação de estilo, a escrita como gesto. Assim como a palavra literária, a vestimenta organiza a experiência sensível, produz significados e transforma o corpo - e, por extensão, a vida - em espaço de comunicação estética.
CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:
Aula 1 - Tema: Introdução geral – Gilda de Mello e Souza, moda e literatura
• Apresentação do curso, da metodologia e dos objetivos;
• Gilda de Mello e Souza: trajetória intelectual e lugar na crítica brasileira;
• O espírito das roupas como marco teórico da crítica e da historiografia de moda no Brasil;
• “Filosofia de arquivo”: a literatura e a fotografia como documento e método.
Aula 2 - Tema: A Moda como fenômeno dialético
• Imitação e distinção na moda a partir de autores como Simmel e Veblen;
• A moda como expressão do moderno e da modernidade – Baudelaire e Walter Benjamin;
• A essência contraditória da Moda: entre a arte e o comércio.
Aula 3 - Tema: Moda como arte do movimento
• Conceitos fundamentais da noção de estética em Gilda de Mello e Souza;
• A Moda como “arte do movimento”: obra inacabada e dependente do corpo;
• Relações com a pintura e a arquitetura;
• Problemas de forma, cor, textura e modelagem como problemas artísticos.
Aula 4 - Tema: Moda e luta de classes
• Moda e luta de classes no século XIX;
• A circulação vertical dos modos de vestir: imitação, distinção e consumo conspícuo;
• Crítica literária à moda burguesa (Balzac, Machado, Alencar, entre outros).
Aula 5 - Tema: A vestimenta como expressão dos papéis de gênero
• A construção dos papéis de gêneros no vestuário da corte;
• A construção dos papéis de gêneros no vestuário da burguesia do século XIX;
• O corpo feminino oitocentista: entre pudor e despudor;
• A literatura brasileira e europeia como expressões das linguagens de gêneros no vestuário do XIX e XX.
Aula 6 - Tema: A cultura da feminilidade burguesa
• O projeto de cultura feminina da burguesia do século XIX;
• Educação sentimental da mulher burguesa: moda e sociabilidade: rituais, etiqueta, aparências;
• Sobre o conceito de caligrafia dos gestos.
Aula 7 - Tema: Manuscritos inéditos sobre moda
• A continuidade de um projeto de investigação sobre a moda nos manuscritos inéditos de Gilda de Mello e Souza, presentes no IEB/USP;
• Uma literatura próxima ao corpo: langue e parole em Ferdinand de Saussure;
• O alargamento da noção de “caligrafia dos gestos” com o conceito de “bricolage”.
Aula 8 - Encerramento e discussão geral.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Básica:
ARQUIVO IEB/USP, Fundo Gilda de Mello e Souza, códigos de referência GMS-CAD15-01, GMS-ENS-065, GMS-ENS-066 e GMS-ENS-068.
SOUZA, Gilda de Mello e. A moda no século XIX: ensaio de sociologia estética. Tese (Doutorado em Sociologia I). Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, 1950. Revista do Museu. Paulista, nova série, v. 5, São Paulo, 1951, p. 7-97.
SOUZA, Gilda de Mello e. A ideia e o figurado. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2005.
SOUZA, Gilda de Mello e. Exercícios de leitura. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2008.
SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.
Complementar:
ADORNO, Theodor. Notas de literatura. Trad. Jorge M. B de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2003.
ADORNO, Theodor. Dialética negativa. Trad. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Jorge. Zahar, 2009.
BALZAC, Honoré. Tratado da vida elegante. In: BALZAC, Honoré; BAUDELAIRE, Charles; D’AUREVILLY, Barbey. Manual do dândi: a vida com estilo. Trad. Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p. 46.
BARTHES, Roland. O prazer do texto. Trad. J. Guinsburg. São Paulo: Perspectiva, 1973.
BARTHES, Roland. Sistema de la moda. Trad. Joan Viñoly i Sastre; Michéle Pendanx. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1978.
BAUDELAIRE, Charles. Sobre a modernidade. Trad. Teixeira Coelho. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
BAUDOT, François. Moda do século. Trad. Maria Teresa Resende Costa. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
BEATON, Cecil. The glass of fashion. New York: Garden City, 1954.
BENJAMIN, Walter. Passagens. Trad. Irene Aron; Cleonice Paes Barreto Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
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